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Embora tenha morado em Antonina por um curto espaço de tempo – cerca de três anos – a estada naquela cidade marcou muito a vida do nosso protagonista, Ataíde Teixeira.

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Assim, antes de nos transportamos com ele para Paranaguá, vamos nos demorar um pouquinho em Antonina. Porque foi ali que Ataíde, já com mais de 10 anos de idade, conseguiu finalmente realizar o sonho de frequentar uma escola e aprender a ler, ganhou mais uma irmã – a Lilita -, e após outra mudança de endereço, viu a comida aumentar na mesa depois que o pai arrumou trabalho nas Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo – “o maior complexo industrial da América Latina no início do século XX” (https://goo.gl/TTnQqE).

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- O papai [Campolino Teixeira] trabalhava na prefeitura, calçando rua. Mas o vovô [materno] mudou da estrada da Graciosa, foi para o Matarazzo calafetar os navios. Aí o papai também arrumou serviço lá.

 

Esse “lá” a que Ataíde se refere não diz respeito apenas à empresa, mas sim às vilas erguidas pela Companhia nas quais os operários contratados e suas famílias passavam a residir. Ataíde descreve o lugar com riqueza de detalhes:

- O Matarazzo tinha três vilas em Antonina: Gamboa, Ceará, e o vô foi morar num lugar por nome Botafogo. Cada vila tinha 10 casas, duas moradas numa casa de madeira, eram duas carreiras de casas, e havia uma escola. Na frente, tinha um tanque comunitário enorme, coberto de telhas, pra turma que morava ali lavar roupa; a casa quase não tinha quintal. Nessas casas, pendurava-se uma sacola na frente para o padeiro deixar o pão. Era o Matarazzo que fornecia também.

Contrastando com os geminados simples de madeira, em um morro de onde se avistava todo o complexo industrial, erguia-se um casarão:

- Era uma casa linda onde morava o gerente do Matarazzo. Uma vez, o Matarazzo em pessoa veio ali, e nós fomos recebê-lo.

Hoje, vários livros registram a história do imigrante italiano Francesco Matarazzo (1854 – 1937), que aportou no Brasil em 1881, fundou um pequeno negócio no interior de São Paulo e chegou em Antonina na primeira metade do século XX já com seus navios, portos e moinhos. O relato feito por Ataíde, contudo, é diferente, porque nos transporta para o cotidiano dos operários responsáveis por construir aquele império. Empresta-lhes nomes, rostos e sonhos:

- Papai trabalhava de pedreiro lá, ele levantou um sobrado pra fazer uma usina de açúcar; o papai falava pra nós que iam no matadouro pegar sangue pra purificar o açúcar, eu não sabia que faziam isso! Os Matarazzo tinham de tudo em Antonina: matadouro, moinhos de sal, açúcar, erva mate, trigo, ... Naquela época, já não usavam estivador para tirar o trigo do navio, que vinha a granel. Saía por esteira e ia direto para o armazém.

As vilas da comunidade operária eram bem isoladas: - Tinha estrada de ferro até lá, mas só pra trem de carga, não tinha ônibus, e o trem de passageiros só chegava no centro de Antonina.

Por conta desse isolamento, a empresa mantinha uma cooperativa:

– Tinha de tudo, fazenda [tecido em metro], secos e molhados pra fornecer aos funcionários, às famílias e também ao público. Bacalhau à vontade, era comida de pobre, carne seca também, vinha de produção deles ou eles mesmos importavam. Naquele tempo, nós comíamos melhor porque a gente pegava no Matarazzo e era descontado em folha – Ataíde completa – e eu fico pensando nas muitas horas de trabalho duro que Campolino e seus companheiros precisaram contabilizar em troca daquele alimento.

Continua na próxima edição.

Até lá!

 
Jane Cardozo da Silveira
Author: Jane Cardozo da SilveiraWebsite: http://lattes.cnpq.br/6693654081890010Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Jornalista com especialização em Jornalismo e mestrado em Turismo, professora no Curso de Jornalismo da Univali. Autora de "Em busca da identidade perdida - subsídios para uma política integrada de comunicação em turismo cultural nos municípios de Penha e Piçarras"
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